sábado, 6 de março de 2010

Venha

Sumo de uvas bêbadas
expremido numa garrafa
desliza por minha garganta
quando quero dançar sem música

E, por mais incrível que seja
o gosto desse delírio,
não se compara ao veneno
ao qual me rendo quando penso em ti

E parto em busca da cura:
morte sóbria que me fará te esquecer
ou vida incerta à qual me lanço,
me jogo, me giro, me revolto, até cair
num lugar que a mente sã não encontraria

Já me via perdida por indagar
se me afogava em seus braços
ou me sufocava no néctar embriagante

Afinal, de que vale te procurar
se nossos caminhos não se encontram
e fico a vagar em passos errantes?


Enquanto se limita ao desejo
a rima que em seus lábios busco traçar,
escorre letal a gota derradeira,
última chance de te provar.

Mas a única boca que beijo
é que aquela que me embriaga,
afogando essa alma vazia.


Oh, sumo com gosto de dor
que faz o sangue fermentar,
me vejo indo ao mesmo rumo das uvas:

Deixando meu sangue escorrer
pelas paredes dessa nobre prisão
Que me esmaga as dores,
e exala a essência deste ser.

Sem obter satisfação
das safras de amor em que me perco
Por sentir o gosto da solidão
corroer-me como vinho seco,

A esperança se varre
como no murchar da vinha.
Mas a última gota não morre, ainda.

Desce mansa pelo vidro entre nós e desenha
a palavra que resume minha sede:
venha.



[mfp]

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